domingo, 25 de abril de 2010

Mudança

Mudança: s. f. Acto de mudar. Troca. Alteração, modificação, transformação (física ou moral). Variação.
In Priberam

Há momentos em que a vida – entidade abstracta normalmente utilizada quando não queremos pôr o nome de ninguém – nos dá um chuto no traseiro que nos faz sair da rotina onde – a gosto ou nem por isso – nos tínhamos instalado.

Há outras alturas, porém, em que nos cabe a nós decidir o rumo: optar por deixar tudo como está ou mudar. A aposta na mudança provoca inevitavelmente medo, pois tudo pode correr mal. Mas há momentos em que tem de ser. Agora ou nunca.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Desilusão

Desilusão: s. f. Decepção.!. Desengano.

In Priberam

Há uns anos, fruto do tempo livre das férias de Natal e de um texto qualquer lido algures, resolvi fazer uma lista de desejos-objectivos para o ano que se seguia. Desde essa altura, a cada fim de ano, retomo a lista, que permanece inalterada.

Este ano, ainda antes do tempo, dei por mim a pensar que não sei onde está a tal espécie de cartilha e que apenas me lembro vagamente dos itens que nela estão escritos. Ao contrário do habitual, não estou com vontade de ter uma lista de quimeras que transitam para os 365 dias seguintes. O amanhã é tão somente o prolongamento do dia de hoje.

Apetece-me ficar simplesmente pelo balanço do ano que está prestes a acabar, que se pode resumir à palavra “desilusão”: as desilusões pessoais e as profissionais, as grandes e as do dia-a-dia, com os outros e comigo. Depois deste ano, é difícil que aquela lista perdida no meio de mil papéis ainda faça sentido.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Como um vento na floresta

Como um vento na floresta,
Minha emoção não tem fim.
Nada sou, nada me resta.
Não sei quem sou para mim.

E como entre os arvoredos
Há grandes sons de folhagem,
Também agito segredos
No fundo da minha imagem.

E o grande ruído do vento
Que as folhas cobrem de som
Despe-me do pensamento:
Sou ninguém, temo ser bom.

Fernando Pessoa

domingo, 23 de agosto de 2009

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Não, não é cansaço...

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...

Álvaro de Campos, in "Poemas", retirado daqui.

domingo, 7 de junho de 2009

Onde está você agora?

Uma das minhas maiores frustrações é não saber música. É não distinguir uma nota da outra. É ser incapaz de fixar o que ouço. 

Em compensação, as palavras sempre fizeram parte da minha vida: as ditas, as não ditas, as malditas... E há palavras com a capacidade de traduzirem o que me vai na alma. Este é um dos exemplos perfeitos:


Às vezes, no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado, juntando
O antes, o agora e o depois
Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho!

Não sou nem quero ser o seu dono
É que um carinho às vezes cai bem
Eu tenho meus segredos e planos secretos
Só abro pra você mais ninguém
Por que você me esquece e some?
E se eu me interessar por alguém?
E se ela, de repente, me ganha?

Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca pra fora
Ou você me engana
Ou não está madura
Onde está você agora?

Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca pra fora
Ou você me engana
Ou não está madura
Onde está você agora?




domingo, 31 de maio de 2009

Madrugada


Ah! Este poema das madrugadas,
que há tanto tempo enrodilhado
num sem-fim de estados de alma
me obcecava, tirânico,
sem se deixar fixar! ...

Madrugada... e esta solidão crescendo,
esta nostalgia maior, e maior, e maior,
de não se sabe o quê
— nunca se sabe o quê...
que haverá nestas horas sozinhas e geladas,
para assim trazer à tona as indefinidas mágoas,
as saudades e as ânsias sem motivo
— de que não sabemos o motivo?...

Vieram as saudades do tempo de menino
— ou dum paraíso lá não sei onde?
Ah! que fantasmas pesaram sobre os ombros,
que sombras desceram sobre os olhos,
que tristeza maior fez maior o silêncio?
A que vem esse calor distante e absorto,
esse calar, esses modos distraídos?
Meu pobre sonhador! a esta hora
porventura se desvenda a Suprema Inutilidade?
e a definitiva ilusão de tantos gestos?

Interroga, interroga...
vai sonhando,
sem que saibas sequer o caminho que segues
vai, distraído e pensativo,
alheio de hoje,
vivendo já o derradeiro segundo...

Que a madrugada tem o pungir das agonias,
mas alheio, como o fim dum pesadelo...

Adolfo Casais Monteiro, retirado daqui


segunda-feira, 25 de maio de 2009

Licença para viajar

Viajar: A - v. intr. 1- Transitar, por qualquer meio de locomoção,
de um lugar para outro, que fica afastado; deslocar-se para um local
distante; 2 - andar em viagem; 3 - [fig.] divagar.
B - v. tr. Percorrer (em viagem); visitar (de viagem + ar).

Dicionário Porto Editora

É um fascínio que vem desde a infância. Dos tempos das revistas lidas em segunda mão, com imagens que faziam a imaginação voar. Dos tempos em que os senhores da cidade chegavam à aldeia com as malas cheias de ilusões. Dos tempos em que tudo era distante.

As revistas já não são em segunda mão, a cidade é uma realidade e o mundo está mais “pequeno”. O fascínio pelas viagens continua. Podem ser reais ou imaginárias, mas mesmo assim viagens.

Bem-vindos a bordo deste espaço sem pretensões. Bem-vindos às minhas viagens.

Fazemos o percurso juntos?